quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ultimo suspiro.

"Bem, todos morrem um dia, é simples matemática. Nada de novo. A espera é que é um problema." - Charles Bukowski. 


          Talvez a morte não deve ser esperada, e sim, adiantada. A morte é a "coisa" da qual todos correm incansavelmente, mesmo estando cientes de que é uma corrida cansativa e sem satisfação no fim. Todos vamos morrer um dia, não precisamos esperar, talvez seja melhor adiantar este ato tão natural
      Me chame de fraco e covarde, suas opiniões sobre mim são, agora, totalmente desnecessárias e sem nexo. Se não há razão para viver e forças para lutar, não há razão para me cansar com algo sem sentido. Sofro por uma vida completamente sem crenças: sem crenças no amor, na humanidade, no bom senso, nos atos de bondade, na vida. Não sejamos hipócritas, a vida não é uma dádiva. 
          Com amargura no coração, tornei-me apático, fleumático, insensível, misantropo. A vida alheia não me importa; o sentimentalismo me incomoda; a tristeza alheia não me comove; as promessas não me atrai; a vida não me convém. 


          São 10:30 da manhã. Fico entre a corda, os remédios e o revólver. A morte caminha ao meu lado, esperando para dar-me um beijo. Anseio por ele. Quero abraçar-te, oh famosa morte. Leve-me para seu covil. Os remédios vão demorar, e talvez possam até mesmo conseguirem me salvar. Percebo então que é inútil. Jogo-os fora. O revólver fará sujeira, e mamãe não gosta. A morte pode ser lenta ou rápida, mas não quero arriscar-me a conseguirem me ajudar. A corda me fará sofrer... hum... parece-me uma boa ideia. Será demorada e sofredora. Ou não. Arriscarei-me. 
         Escrevo-te então, pessoas que fingiram me amar; pessoas que me fizeram sonhar; pessoas que me fizeram sofrer (a vocês agradeço, sem vocês, isso jamais estaria acontecendo). Desculpe-me mamãe, sei que você ficará triste, mas dizem que o tempo cura tudo, não é?! Farei-te uma visita, espere-me. 
         Alguns tacharam-me de covarde, fraco, sem escrúpulos. Acreditem, eu tentei, muito. Religiosos me mandaram para o inferno. Desculpe pessoas, mas ele não existe. Estarei sob a sola de suas botas, procure-me por lá quando vieres também, pois é aqui que vocês irão parar. Estamos combinados? Nosso encontro pode ser a qualquer hora. 
         Amarro a corda, subo em um pequeno banco. Lágrimas escorrem de meus olhos, caminham por meu rosto, caem no chão. Passo o nó em meu pescoço, olho a chuva cair. Acendo o último cigarro. Puxo, trago, solto. Bebo a ultima taça de vinho. A chuva brinca no vidro da janela. Pulo. 
          A você que lê, também espero-te. Nosso encontro pode levar horas, dias, meses, anos... mas nos encontraremos. A vida é um ciclo repetitivo, pulei para o estágio final: morrer.
Aperto no peito com coração sem batidas
Esqueça-me, de mim já esqueci.
Procure-me em vão
a você não pertenço não. 
 

    Um comentário:

    1. Daaaaaaaaaaaaan! Que magnífico, me chame de louca, mas li como se fosse a morte que narra Liesel Meminger!
      Parabéns, um dos seus melhores textos e com certeza a maior essência da sua escrita.

      Beijos. ♥

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