Talvez a morte não deve ser esperada, e sim, adiantada. A morte é a "coisa" da qual todos correm incansavelmente, mesmo estando cientes de que é uma corrida cansativa e sem satisfação no fim. Todos vamos morrer um dia, não precisamos esperar, talvez seja melhor adiantar este ato tão natural.
Me chame de fraco e covarde, suas opiniões sobre mim são, agora, totalmente desnecessárias e sem nexo. Se não há razão para viver e forças para lutar, não há razão para me cansar com algo sem sentido. Sofro por uma vida completamente sem crenças: sem crenças no amor, na humanidade, no bom senso, nos atos de bondade, na vida. Não sejamos hipócritas, a vida não é uma dádiva.
Com amargura no coração, tornei-me apático, fleumático, insensível, misantropo. A vida alheia não me importa; o sentimentalismo me incomoda; a tristeza alheia não me comove; as promessas não me atrai; a vida não me convém.
São 10:30 da manhã. Fico entre a corda, os remédios e o revólver. A morte caminha ao meu lado, esperando para dar-me um beijo. Anseio por ele. Quero abraçar-te, oh famosa morte. Leve-me para seu covil. Os remédios vão demorar, e talvez possam até mesmo conseguirem me salvar. Percebo então que é inútil. Jogo-os fora. O revólver fará sujeira, e mamãe não gosta. A morte pode ser lenta ou rápida, mas não quero arriscar-me a conseguirem me ajudar. A corda me fará sofrer... hum... parece-me uma boa ideia. Será demorada e sofredora. Ou não. Arriscarei-me.
Escrevo-te então, pessoas que fingiram me amar; pessoas que me fizeram sonhar; pessoas que me fizeram sofrer (a vocês agradeço, sem vocês, isso jamais estaria acontecendo). Desculpe-me mamãe, sei que você ficará triste, mas dizem que o tempo cura tudo, não é?! Farei-te uma visita, espere-me.
Alguns tacharam-me de covarde, fraco, sem escrúpulos. Acreditem, eu tentei, muito. Religiosos me mandaram para o inferno. Desculpe pessoas, mas ele não existe. Estarei sob a sola de suas botas, procure-me por lá quando vieres também, pois é aqui que vocês irão parar. Estamos combinados? Nosso encontro pode ser a qualquer hora.
Amarro a corda, subo em um pequeno banco. Lágrimas escorrem de meus olhos, caminham por meu rosto, caem no chão. Passo o nó em meu pescoço, olho a chuva cair. Acendo o último cigarro. Puxo, trago, solto. Bebo a ultima taça de vinho. A chuva brinca no vidro da janela. Pulo.
A você que lê, também espero-te. Nosso encontro pode levar horas, dias, meses, anos... mas nos encontraremos. A vida é um ciclo repetitivo, pulei para o estágio final: morrer.
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| Aperto no peito com coração sem batidas Esqueça-me, de mim já esqueci. Procure-me em vão a você não pertenço não. |

Daaaaaaaaaaaaan! Que magnífico, me chame de louca, mas li como se fosse a morte que narra Liesel Meminger!
ResponderExcluirParabéns, um dos seus melhores textos e com certeza a maior essência da sua escrita.
Beijos. ♥